You've got a face for smile, you know...

tupacabra:

introductory paragraph of my essay:

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A Árvore Itinerante dos Sonhos Doces

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Não houve um domingo em toda a minha vida que eu não a visse, a árvore doce.

Ela aparecia de supetão, fazendo escândalo por onde quer que passasse, gritando “Estou chegando, já cheguei” como se para avisar às crianças da vizinhança que ela estava ali. Ela surgia no céu, flutuando, os galhos coloridos açucarados envoltos numa espécie de luz protetora. Não tinha frutos; comíamos os galhos. Cada ramo tinha uma cor, e a minha favorita era o rosa. Nunca gostei de rosa, mas era diferente com a aquela árvore, pois dentre todos eles, era o mais doce.

Fizesse chuva ou sol, se era domingo, era dia de árvore doce. 

A árvore era tão doce, que até mesmo seu guardião era gentil. Ele era o responsável por segurá-la no alto e podar seus galhos cada vez que uma criança lhe pedia por um. “Que cor, criança?” ele perguntava. No começo, estava tão maravilhado pela beleza daquilo que eu apenas apontava humildemente para o rosa, sem falar um “A”. O guardião sorria, então. Retirava um galho da cor escolhida e nos entregava com satisfação e respeito, como se fosse um dos maiores tesouros do mundo. 

Com o passar do tempo, o ato se tornou um costume. Quando escutava o chamado da árvore, lá ia eu pedir uma oferenda para minha mãe, uma moedinha sem vergonha para mostrar meu respeito à árvore. Corria para o portão, me agarrando às grades de proteção descascadas e enferrujadas em expectativa, a modesta moeda de latão apertada entre os dedos e a grade. Espiava pela esquerda e lá vinha ela, descendo a rua, flutuando na mão do guardião num arco-íris de cores deliciosas reluzindo sob a preguiçosa luz do sol de domingo. Fazíamos o ritual de sempre - eu lhe entregava a moeda, apontava silenciosamente para a cor que queria, e, após me entregar, ele acompanhava a árvore para onde quer que ela fosse.

O sabor adocicado dos galhos tinha gosto de sonho. A cada chumaço rosa experimentado, novos sonhos brotavam na minha mente e se materializavam frente aos meus olhos na realidade. Eu via duendes fazendo malabarismo com sementes; piratas navegando em mares inexplorados em busca de tesouros incríveis; fadas voando pelo ar, tilintando com seu pirlimpimpim dourado; sereias sentadas em pedras, cantando as mais lindas canções, atraindo os pescadores e marinheiros para o fundo do mar; bruxos evocando feitiços e seres encantados escondidos nas folhas do jardim.

Se havia uma droga para os loucos, aquela era a minha. Quando o efeito dos sonhos acabava, já era domingo outra vez, e lá vinha ela, descendo a rua, cantarolando “Estou chegando, já cheguei!”. E então eu fazia uma oferenda para sonhar de novo.

Certo dia, parei de ouvir o canto da árvore doce. Não importava quanto tempo eu passasse sentado na varanda, olhando ansioso de um lado para o outro, eu não a ouvia, eu não a via. Quem sabe, talvez ela tenha mudado de rota, andejando as ruas da capital até encontrar crianças que precisassem dos seus galhos doces. 

De vez em quando eu a vejo por aí, ao longe, trilhando seu caminho; o guardião sempre por perto, sempre sorrindo.

Há aqueles que dizem que nada é por acaso, para tudo há motivo. Pensando bem, eles estão certos. A árvore me alimentou daquilo que eu mais precisava até ser capaz de produzi-los por mim mesmo. Penso em agradecê-la na próxima vez que a vir. Seja lá quando for.

by: kipa

Sobre Romeus e Atos de Amor

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Na sétima série (oitavo ano), tivemos de ler essa peça de Shakespeare Romeu e Julieta e me lembro de ter passado o restante do ano ouvindo minhas colegas declamarem a tão célebre citação:

Romeu. Ó, Romeu. Renega teu nome, renegue teus pais, diga que me ame e, então, serei tua.

Muito certamente deve estar errada. Mas a professora de literatura deve ter ficado feliz em ver que um bando de adolescente entre 13 e 14 anos declamavam as palavras de Julieta no que, para mim, é a tragédia mais romântica antes de Titanic.

Bem, o fato é que, neste momento, durante esta lembrança, me peguei pensando em atos de amor, como aquelas serenatas ridículas, mas totalmente românticas que a gente vê nas novelas mexicanas que vivem passando no canal 4. Ou, então, a versão solo, com um cara segurando uma boom box debaixo da janela da garota nos filmes americanos. Existe uma infinidade de atos de amor neste mundo, alguns mais profundos, outros mais engraçados, mas todos eles têm a mesma intenção: provar à pessoa amada nosso amor.

No mundo moderno, porém, dificilmente você vai ver alguém jogando pedrinhas na sua janela. Até porque - sejamos honestos -, seu quarto é, literalmente, no meio da casa, e a única vista que sua janela lhe proporciona é a do banheiro, o que não é nada bom quando seu pai tem uma diarreia por ter comido muitos pedaços de pizza doce da pizzaria nova do bairro.

Sói que daí, você sabe, é difícil não suspirar imaginando o quão maravilhoso seria receber um desses atos de amor. E não estou falando daquele carrinho ridículo e barulhento que vai nas casas das pessoas tocando um solo de saxofone no último volume enquanto uma mulher com voz de radialista de programas pornôs lê uma poesia barata que, pode apostar, já foi lida para metade do bairro. Não senhor! Estou falando das benditas serenatas à lua cheia, de caras que cruzam o Atlântico apenas para lhe dizer pessoalmente que te amam, de um flash mob com a nova canção romântica do Bruno Mars. Esse é o tipo de ato de amor que eu espero, embora eu saiba que estes atos de amor são mais possíveis de acontecer nos filmes e nos livros do que na vida real. Principalmente comigo!

Será que os atos de amor se restringem apenas aos Romeus criados pela mídia (televisiva, cinematográfica ou literária)? Porque, veja só, estou pronto, viu? Estou prontinho para receber um ato de amor. 

E não precisa ser muita coisa não. Pode ser só uma cartinha mesmo. Não precisa cometer suicídio por minha causa - pelo amor de Deus, se você fizer um ato de amor para mim, eu espero poder te agradecer de alguma forma, e seria complicado fazer isso com uma pessoa, sabe, que não está viva. 

Posso estar sendo egoístas ao não considerar a opinião de todos os seres humanos do planeta Terra, mas gostaria de deixar registrado que as todas pessoas precisam de atos de amor porque todos merecem receber um ato de amor, seja ele um flash mob no meio da Avenida Paulista ou uma frase de três palavras escritas num post-it grudado ao armário de alguém.