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Just in case you guys need some cheering up

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“Some books are so familiar that reading them is like being home again.” - Louisa May Alcott, Little Women
Caminhar No Céu

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Jamais gostei de ir ao circo. Gosto da pipoca doce e da batata chips que vendem naquele carrinho que mais parece um aquário ambulante, Gosto do filme Dumbo, que se passa num circo. Gosto até das apresentações do Cirque du Soleil, mas jamais gostei de ir ao circo. Palhaços me assustam. Mulheres-barbadas desafiam meu cérebro ortodoxo. Malabares com tochas flamejantes me fazem lembrar da vez em que mamãe me disse para não espiar o bolo no forno, pois queimava, e eu não a ouvi. 

Lembro-me perfeitamente de ouvir meu ex-padrasto cuspir, irritado “Esse menino não gosta de nada! Nem parece criança!” após eu reclamar pela enésima vez de estar onde não queria.

Mas mesmo eu, o peralta emburrado, precisava dar o braço a torcer de vez em quando. E para não dizer que todos os minutos debaixo daquela grande tenda colorida foram sofridos, houve cinco deles em que eu finalmente calei a boca. 

Um homem brincava de pular lá no alto, como um sapo pulado em vitória-régias no rio Amazonas, dependurando-se em barras de ferro flutuantes. Ele balançava o corpo, tomava impulso, e se soltava, voando feito pássaro sem asas. Então ele se agarrava em outra barra, contorcia-se, ficava de ponta cabeça, balançava, voava, e repetia a estonteante e perigosa coreografia no céu. 

Em casa naquela mesma tarde, fingi que era morcego. Subi na varanda do quarto da minha mãe e pus-me de ponta cabeça, os braços molengas balançando com a brisa fria. O sangue desceu ao cérebro mais rápido do que quando damos cambalhota, meu nariz estava gelado, e, pela primeira vez, o mundo estava sem pé nem cabeça, pois pairava acima de mim enquanto eu oscilava no ar.

Mamãe deu um berro e eu caí. Vi tudo preto a princípio. Quando abri os olhos de novo, lá estava o céu, sorrindo o azul amanteigado de sempre ao se despedir.

Desde então, se tinha onde eu firmar as pernas, eu ficava de ponta cabeça. Na casa da minha vó, nas arquibancadas da escola, na beirada da piscina. Eu era “meio doido”, de acordo com meu primo. Mas ele não via o que eu via, não entendia o mundo como eu entendia. Tudo para ele era certeza - o chão é onde se pisa, pois nos dá segurança. Eu gostava da não-certeza de não ter onde pisar, de ver as pessoas estarem a ponto de despencar enquanto eu caminhava nas nuvens. Por mais que eu tentasse convencê-lo, ele balançava a cabeça em negação.

"Azar o dele", eu pensava. Hoje, ainda penso assim. Porque enquanto ele se resigna a dar meia volta ao dar com uma rua sem saída, para mim, o céu é o limite. Ele é o palhaço, e eu o trapezista. Ele pode brincar com o que quiser; o chão está lá para segurá-lo. Eu prefiro cair no céu e nunca mais descer.

A vida não tem graça quando se assiste o espetáculo da zona segura.

A Árvore Itinerante dos Sonhos Doces

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Não houve um domingo em toda a minha vida que eu não a visse, a árvore doce.

Ela aparecia de supetão, fazendo escândalo por onde quer que passasse, gritando “Estou chegando, já cheguei” como se para avisar às crianças da vizinhança que ela estava ali. Ela surgia no céu, flutuando, os galhos coloridos açucarados envoltos numa espécie de luz protetora. Não tinha frutos; comíamos os galhos. Cada ramo tinha uma cor, e a minha favorita era o rosa. Nunca gostei de rosa, mas era diferente com a aquela árvore, pois dentre todos eles, era o mais doce.

Fizesse chuva ou sol, se era domingo, era dia de árvore doce. 

A árvore era tão doce, que até mesmo seu guardião era gentil. Ele era o responsável por segurá-la no alto e podar seus galhos cada vez que uma criança lhe pedia por um. “Que cor, criança?” ele perguntava. No começo, estava tão maravilhado pela beleza daquilo que eu apenas apontava humildemente para o rosa, sem falar um “A”. O guardião sorria, então. Retirava um galho da cor escolhida e nos entregava com satisfação e respeito, como se fosse um dos maiores tesouros do mundo. 

Com o passar do tempo, o ato se tornou um costume. Quando escutava o chamado da árvore, lá ia eu pedir uma oferenda para minha mãe, uma moedinha sem vergonha para mostrar meu respeito à árvore. Corria para o portão, me agarrando às grades de proteção descascadas e enferrujadas em expectativa, a modesta moeda de latão apertada entre os dedos e a grade. Espiava pela esquerda e lá vinha ela, descendo a rua, flutuando na mão do guardião num arco-íris de cores deliciosas reluzindo sob a preguiçosa luz do sol de domingo. Fazíamos o ritual de sempre - eu lhe entregava a moeda, apontava silenciosamente para a cor que queria, e, após me entregar, ele acompanhava a árvore para onde quer que ela fosse.

O sabor adocicado dos galhos tinha gosto de sonho. A cada chumaço rosa experimentado, novos sonhos brotavam na minha mente e se materializavam frente aos meus olhos na realidade. Eu via duendes fazendo malabarismo com sementes; piratas navegando em mares inexplorados em busca de tesouros incríveis; fadas voando pelo ar, tilintando com seu pirlimpimpim dourado; sereias sentadas em pedras, cantando as mais lindas canções, atraindo os pescadores e marinheiros para o fundo do mar; bruxos evocando feitiços e seres encantados escondidos nas folhas do jardim.

Se havia uma droga para os loucos, aquela era a minha. Quando o efeito dos sonhos acabava, já era domingo outra vez, e lá vinha ela, descendo a rua, cantarolando “Estou chegando, já cheguei!”. E então eu fazia uma oferenda para sonhar de novo.

Certo dia, parei de ouvir o canto da árvore doce. Não importava quanto tempo eu passasse sentado na varanda, olhando ansioso de um lado para o outro, eu não a ouvia, eu não a via. Quem sabe, talvez ela tenha mudado de rota, andejando as ruas da capital até encontrar crianças que precisassem dos seus galhos doces. 

De vez em quando eu a vejo por aí, ao longe, trilhando seu caminho; o guardião sempre por perto, sempre sorrindo.

Há aqueles que dizem que nada é por acaso, para tudo há motivo. Pensando bem, eles estão certos. A árvore me alimentou daquilo que eu mais precisava até ser capaz de produzi-los por mim mesmo. Penso em agradecê-la na próxima vez que a vir. Seja lá quando for.