You've got a face for smile, you know...
Um Ano Sem Chuva

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Faz muito, muito tempo desde que caiu uma gota de água do céu pela última vez. A realidade tem sido ondas de calor, sol rachando e muito suor brotando da testa, escorrendo pelas costas e grudando na camiseta em pleno inverno. Às vezes até abro a janela de madrugada, lá pelas duas ou três da manhã quando está mais fresco, só para sentir o vento frio congelar a ponta do nariz.

Quisera Deus que eu fosse o único a sentir falta da chuva. Porém, o que muitos realmente sentem falta é da água que abastece nossa cidade. Alguns poucos, como minha própria mãe, sentem falta do plec plec das gotas pesadas no telhado, ecoando surdas pela casa feito canção de ninar. O piano da natureza.

Sinto falta da sensação gostosa que a chuva traz, sabe? O primeiro choque da brisa gélida que entra pelas frestas da casa, que nos faz tremer e encolher e esfregar os braços em busca de calor. Calor humano. Então notamos que, por mais que esfreguemos as palmas das nossas mãos pelo corpo, não conseguimos nos aquecer.

Precisamos do calor de outra pessoa.

A chuva nos faz sentir saudade de alguém. Alguém que nem sempre conhecemos, mas que gostaríamos que estivesse ali.

E agora que finalmente está chovendo, não posso deixar de sentir que as coisas estão se “realinhando”. O frio do inverno voltou, as pessoas estão com esperança de que nossa represa se encha novamente, as mamães já foram dormir… E cá estou, sentindo falta de alguém do passado, do presente e do futuro, desejando que esta pessoa esfregue meus braços, afaste frio, que não vem de fora, mas de dentro.

Conto os segundos pelas gotas acumuladas na luz do poste em frente a minha casa, da janela do meu quarto. Um, dois, trêsquatrocinco, seis, seteoito, nove, dezonzedoze… Uma conta que desafia as leis da matemática e do próprio tempo.

Um raio divide o céu em dois enquanto escrevo, iluminando, por apenas um segundo, toda a cidade e toda as gotas e nuvens do céu num daqueles momentos em que o tempo é somente uma coleção boba de números, dispensável. Debruçado sobre a escrivaninha, inalo o cheiro de chuva, asfalto e alecrim, e mais uma vez sinto falta daquilo que não conheço.

Não sei quando vai chover novamente (estamos assim agora em São Paulo, ninguém sabe quando vem), mas vou torcer para seja em breve. Pelas pessoas sem água; por aquelas que apenas querem uma boa noite de sono; e por mim, e aqueles como eu, que esperam que a chuva traga algo além de uma promessa, algo concreto. Até lá, vou continuar contando gotas como quem conta os segundos, embalado pelos seus plec plec no toldo verde, envolvido pela sopro frio que entra pela janela aberta, cheirando a chuva, asfalto, alecrim e saudade.

Demi Lovato - Skyscraper (acapella studio version)
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😢❤

sirl33te:

Just in case you guys need some cheering up

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