You've got a face for smile, you know...

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Promessas quebradas

‘Cause you broke all your promisses — Christina Perri (“Jar of Hearts”)

Li tantos textos sobre tantos Vocês diferentes recentemente que acabei por me pegar pensando em você, o meu Você (que sabe exatamente quem é).

Enquanto discorria os olhos por páginas e páginas cheias dessa palavra (“você”) e de muitas outras que a acompanhava construindo uma história feliz, não pude deixar de relembrar nossos momentos. Momentos em que Você não era você, e sim parte de um Nós secreto que eu jamais dizia em voz alta. 

Agora mesmo estou pensando em quão pouco tempo ficamos juntos, fisicamente falando. Não somamos horas o bastante para conseguir sequer um dia. Cada segundo que te toquei não se comparam aos dias — não, meses que desejei poder apenas vê-lo, de longe mesmo, mas perto o bastante para conseguir fortificar seus traços em minha mente. Esse desejo, essa angústia me faz tremer, faz o sangue gelar, os olhos nadarem num mar salgado de saudade e imaginação travar, ao mesmo tempo em que tenho vontade de baixar a cabeça e permanecer assim até o tempo decidir regressar para o passado onde o presente seja ao seu lado.

O mundo não era nosso; nós tínhamos nosso próprio mundo. Você pensava na casa, eu nos jardins; você pensava no seu escritório, e eu dizia que só queria um quarto com vista para o exterior. Eu pensava que a casa era sua. Você dizia que a casa era dos nossos filhos, mas o quarto era nosso. Sonhamos toda uma vida, que, hoje, talvez nem faça parte dos seus planos, e se assim for, prefiro não saber — deste modo, quando sonhar contigo, vou sonhar o sonho que sonhamos juntos.

Mas então veio a vida, e brincando de boliche ela nos separou, um pino para a canaleta esquerda, o outro para direita, onde ficamos presos.

Eu fiz minha promessa. Você fez a sua.

Eu disse que o encontraria e retomaríamos de onde deixamos. Ou que começaríamos de novo. Daríamos um ponto final ao prólogo para finalmente começarmos a escrever o capítulo um do nosso romance. 

Você disse que não me esqueceria, que o futuro estava logo ali na esquina; só precisávamos esperar.

E assim juramos debaixo das estrelas e da lua que assim faríamos, dando início à contagem regressiva dos anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, segundos para suprir cada um dos meus sentidos com você. 

Mas existe um motivo pelo qual construíram-se palácios de mármore e marfim e não de cartas de amor: durante a tempestade, tijolos com poesias gravadas simplesmente voam e se perdem para sempre na escuridão do universo. Quanto a nós, devíamos ter escolhido outro material para construir o nosso que não palavras digitadas, faladas ou gravadas em algum lugar qualquer. Se tivéssemos sido mais espertos, se tivéssemos prestado mais atenção, quem sabe tivéssemos visto a grande intempérie vindo bem na nossa direção, devastando os castelos de papel e assoprando para longe o de palavras.

Perdidos, começamos a nos reerguer, você da sua forma, eu da minha; nossas promessas bem guardadas dentro de nós.

Mas a hora chegou, e quebramos nossa promessa.

Eu não poderia encontrá-lo sem saber se você queria ser encontrado. Foi quando eu descobri que você havia erguida paredes sólidas para um castelo diferente em outro lugar. Você estava bem. E eu não poderia ir até você. Eu não posso ir até você não sabendo se sua promessa ainda consegue andar após tantos anos.

Não imagino você lendo isso algum dia. Seja como for, me desculpe. Me desculpe por quebrar minha promessa, quer ela ainda tenha validade ou não para você, me desculpe.

Mas eu te peço que, caso não tenha quebrado a sua, que entenda da mesma forma como eu hoje entendo. Às vezes vamos quebrar nossas promessas. Algumas delas vão nos consumir aos poucos até não sobrar nem o recheio dos ossos. Não quebro minha promessa por mim. Eu a quebro pelas letras miúdas do contrato que diziam: se você ama algo, deve deixá-lo livre.

Então livre você será.

Tinha uma maldita pedra no caminho

“Havia uma pedra no caminho”, Drummond já dizia. “No caminho, havia uma pedra”.
Algumas pessoas vão dizer que no caminho tinha uma pedra porque as ruas estão esburacadas; porque, na verdade, estamos falando da vida rural, então é lógico que você vai ver muitas pedras no caminho; e outras que não fazem idéia do que é Drummond.
Seja qual for seu caso, eu não o/a julgo.
Mas ainda tem algumas pessoas que vão saber exatamente o que é essa pedra no caminho. Ora, é apenas uma pedra! Que está no meio do caminho. É só tirar ela dai, chute ela para longe e pronto, problema resolvido. E eu concordo; é muito mais fácil apenas chutar a bendita para longe e seguir adiante, feliz e saltitante, cantarolando alguma música da Noviça Rebelde ou coisa do tipo. No entanto, o que fazer quando, em vez de uma simples pedra, o que temos é um grande pedregulho - daqueles que sempre caem em cima do Coyote nos desenhos do Papa Léguas - bem na nossa frente? Se você chutá-lo, certamente alguma coisa vai se quebrar, e não é a pedra. Não dá nem para movê-la de lugar; é tão pesada quanto uma manada de elefantes fêmeas grávidas de pequenos elefantinhos. Qual é a solução neste caso? Simples: tome outro caminho. Ou dê a volta, mesmo que demore, ainda vai conseguir chegar lá.
Bem, uma vez que um passarinho faminto comeu as migalhas de pão que deixei pra trás, não tenho como voltar. E eu até poderia dar a volta, mas as bordas da rocha dão direto num precipício, e se eu arriscar, se chegar perto demais, vou cair.
Não posso voltar atrás nem dar a volta. Que outra escolha tenho? Escalar? Pegar um martelo e martelar e martelar até conseguir um buraco grande o bastante para eu poder passar? Hadouken?
A verdade, eu bem sei, é que não há muito que podemos fazer. Essa pedra, essa Muralha da China, precisa ser escalada. Um baita d’um trabalho. Mas é a única opção.
Então por que resisto tanto a isso? Não é a primeira vez que escalo este muro. Entretanto, o susto e então a dor proporcionada pela queda é grande o bastante para te fazer pensar duas mil vezes antes de colocar o equipamento. E se sua mão ficar suada? E se você escorregar de novo? Não vai sobrar mais nenhum pedacinho para remendar com Super-Cola.
Alguém me disse para ser confiante, acreditar que posso fazer isso e dar o meu melhor para conseguir chegar onde quero. Que eu deveria parar de deixar o medo de cair de novo me impedir de agarrar a corda e tentar subir mais uma vez. Porque, no fim das contas, a vida é uma grande escalada, e você vai cair como todo mundo, mas vai se reerguer, cuspir nas mãos e tentar de novo e de novo e de novo até conseguir chegar do outro lado.
Depois de um discurso desse a gente até olha para a corda com outros olhos. De repente, ela não é mais uma cobra venenosa com dentes pontudos e mandíbula forte pronta para atacar; o muro não parece tão alto… Pra ser sincero, a muralha agora mais se parece com aquelas pedrinhas que a gente joga no lago para ver quantas vezes ela quica na superfície antes de afundar.
Então, embora esteja aterrorizado, preciso esticar os braços, pegar essa pedra e jogá-la longe, bem longe, onde ela não possa me encontrar de novo, não importa o quanto ela pese. Ninguém vai tirá-la do meu caminho por mim. E até que eu mesmo faça isso, ela vai continuar ali, bem no meio do caminho.
Pois veja bem, Drummond, estou me inclinando. Estou pegando a pedra com as minhas mãos. E logo mais ela pode voltar a ficar no seu caminho, não no meu.